A divisão das ruas está apenas começando e suas consequências ainda são imprevisíveis. As manifestações contrárias ao governo nesse momento em que o número de casos de covid-19 e de mortos continuam em alta são vistas como um “esquenta” do que vem pela frente, quando a pandemia passar. “Não vamos às ruas em plena pandemia. Mas, na hora que abrir, as manifestações serão maiores. Sem a pandemia, a história será outra”, calcula o deputado Rubens Bueno, do Paraná, um dos líderes do Cidadania, partido que integra a formação de uma frente ampla em defesa da democracia.
O “esquenta” da política é reforçado pelos movimentos antirracistas que tomam conta do mundo depois do assassinato do negro George Floyd, em Minneapolis, nos Estados Unidos. E vem na semana em que o governo passará por testes no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e no Supremo Tribunal Federal (STF). No primeiro, começa o julgamento da chapa Jair Bolsonaro-Hamilton Mourão por abuso de poder na eleição de 2018. Diante da tendência da Corte de rejeitar o pedido de cassação da chapa, as atenções estarão no STF, onde os ministros devem decidir pelo prosseguimento do inquérito das fake news, aberto pelo próprio Supremo. É esse inquérito, que tem deputados bolsonaristas entre os alvos, que levou o presidente da República a escrever uma mensagem a Sergio Moro, em abril, dizendo que era “mais um motivo para a troca” do então diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo. O então ministro da Justiça, hoje, engrossa as fileiras de uma nova frente oposicionista e, no final de semana, flertou com a frente ampla em defesa da democracia.
A frente ampla, por enquanto, é embrionária, exercitada em lives por integrantes de partidos de esquerda, como o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), e de centro, como o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Nas ruas, surge por movimentos da sociedade civil. As legendas promovem essa frente como um contraponto ao comportamento de Bolsonaro, que flerta com movimentos autoritários e trata a pandemia como se não fosse algo grave, levando o país a ser criticado até mesmo pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O fato de o Ministério da Saúde retirar do ar a contagem geral de número de casos e de mortos por covid-19, por exemplo, foi mais um ingrediente que levou à união de segmentos de partidos de centro e de esquerda, a cada dia mais preocupados, tanto com os reflexos no planejamento das ações para evitar que a tragédia da pandemia se amplie, quanto com o destino da democracia no país. Até aqui, o que une todos os partidos é a defesa da democracia, que, na visão do cientista político Amorim Neto, da Fundação Getulio Vargas (FGV), está numa “sinuca de bico” no Brasil. No momento, segundo ele, não dá para descartar nenhuma possibilidade –– nem de impeachment, nem de uma escalada autoritária. “O momento atual do Brasil é tenebroso, e o destino do país está totalmente em aberto. É fundamental uma ampliação do consenso político a favor da Constituição. Os arroubos só podem ser minimizados com atuação ampla política, que ainda não existe”, observa.
Impeachment - Essa confusão da política joga, hoje, a favor do presidente. Até aqui, o afastamento dele não une os partidos. O próprio presidente da Câmara, Rodrigo Maia, mencionou no fim de semana que não defende esse caminho, mas avisou que chegará o momento em que terá que avaliar os 20 pedidos já apresentados ao Parlamento contra o presidente da República. No Brasil, os dois impedimentos –– o de Fernando Collor, em 1992, e o de Dilma Rousseff, em 2016 –– tiveram um padrão: os vices, Itamar Franco e Michel Temer, trabalharam a favor da queda dos titulares, diante da iminente instalação do processo e depois que a população tomou as ruas.“Nenhum movimento de impeachment pode ser feito sem amplo consenso da sociedade”, lembra Amorim Neto.
*** Informações com JORNAL CORREIO BRAZILIENSE
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